O capítulo 12 de Gênesis marca um dos pontos de virada mais importantes de toda a Bíblia. Até aqui, acompanhamos a história da humanidade em sua dimensão coletiva: a criação, a queda, o dilúvio, as genealogias e a dispersão das nações. A partir de agora, o foco muda. Deus passa a agir de forma direta e pessoal na vida de um homem específico.
É em Gênesis 12 que Abrão entra em cena não apenas como descendente de uma linhagem, mas como alvo de um chamado divino. Um chamado que exige fé, ruptura, obediência e confiança. Deus pede que Abrão deixe sua terra, sua parentela e a casa de seu pai, não oferecendo um mapa, mas uma promessa.
Este capítulo inaugura o início da história do povo da promessa, da aliança que atravessará gerações e culminará no cumprimento maior dos planos de Deus para a humanidade. Aqui nascem temas centrais das Escrituras: fé, eleição, promessa, bênção e missão.
Ler Gênesis 12 é compreender que Deus não escolhe Abrão por mérito, mas por propósito. É perceber que a caminhada da fé muitas vezes começa com um “vai” antes mesmo de sabermos exatamente para onde estamos indo.
Antes de avançarmos versículo por versículo, é importante lembrar: este não é apenas um relato antigo. É um convite fora do tempo para refletirmos sobre o Deus que chama, conduz e transforma histórias comuns em histórias eternas.
Deus chama Abrão e lhe faz promessas
1- Ora, o Senhor disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei.
Deus fala com Abraão, que ainda se chamava Abrão, e lhe ordena a sair da terra em que se encontrava, Harã. Aquela era a terra onde seu pai, Terá, havia se estabelecido após parar a jornada que tinha como destino Canaã. Em vez de prosseguir, Terá permaneceu ali, passando a habitar em Harã com seus filhos e todo o seu povo.
Agora, com o seu pai Terá morto, Deus ordena que Abrão retome o caminho interrompido, deixando para trás não apenas um lugar, mas também uma história de permanência e acomodação. Ele deveria partir para uma terra que ainda lhe seria mostrada, sem conhecer o destino final, guiado apenas pela palavra e pela promessa do Senhor.
2- E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engradecerei o teu nome; e tu serás uma benção.
Após a ordenança, Deus faz promessas a Abraão:
- Abraão será uma grande nação
- Será muito abençoado
- Teria o nome fortemente engrandecido
- A benção estaria sobre a vida de Abraão
3- E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra.
Deus continua a fala, fazendo outras promessas:
- Todo aquele que abençoar a Abraão seriam abençoados por Deus por isso.
- Todo aquele que amaldiçoar a Abraão também seriam amaldiçoados por Deus por isso.
- Todas as famílias da terra que estivesse em Abraão, seriam famílias abençoadas
4- Assim partiu Abrão como o Senhor lhe tinha dito, e foi Ló com ele; e era Abrão da idade de setenta e cinco anos quando saiu de Harã.
Então, ao ouvir a voz do Senhor, a sua ordenança e as suas promessas, Abraão, aos 75 anos de idade, decide obedecer e partir, como Deus tinha dito.
Partiu com Abraão, Ló, o seu sobrinho.
5- E tomou Abrão a Sarai, sua mulher, e a Ló, filho de seu irmão, e todos os bens que haviam adquirido, e as almas que lhe acresceram em Harã; e saíram para irem à terra de Canaã; e chegaram à terra de Canaã.
Partiu com Abraão e chegaram a terra de Canaã:
- Sara, sua esposa
- Ló, seu sobrinho
- Servos e servas
- Animais
- Bens que tinha adquirido em Harã
6- E passou Abrão por aquela terra até ao lugar de Siquém, até ao carvalho de Moré; e estavam então os cananeus na terra.
Que terra era essa que Abrão passou?
Quando o texto diz que Abrão “passou pela terra”, está falando que ele entrou e atravessou a região de Canaã, caminhando por ela até chegar a Siquém, um lugar específico dentro desse território.
Nos versículos anteriores, Deus manda Abrão sair. Abrão parte e entra na terra que Deus lhe mostraria. Essa terra é identificada logo em seguida como Canaã (Gn 12:5).
Portanto, em Gn 12:6, “a terra” já é a Canaã.
7- E apareceu o Senhor a Abrão, e disse: À tua descendência darei esta terra. E edificou ali um altar ao Senhor, que lhe aparecera.
“E apareceu o Senhor a Abrão…”
Quando o esse versículo diz que o Senhor apareceu a Abrão, não significa que Deus tenha se mostrado a ele de forma física visível, como um homem diante dele. A própria Escritura deixa claro, em diversos momentos, que Deus é espírito e que ninguém pode vê-Lo em Sua essência (João 1:18 – 1 Timóteo 6:16).
Nesse contexto, a palavra “apareceu” deve ser compreendida como uma manifestação de Deus de forma espiritual, uma revelação que Abraão percebeu de forma a não se confundir que realmente era presença de Deus se apresentando e falando com ele.
Deus Se mostra a Abrão de maneira sobrenatural, possivelmente por meio de uma visão, de uma voz audível, ou de uma forte percepção espiritual que não deixa dúvidas quanto à origem daquela mensagem.
Essa não é uma aparição física, mas uma experiência real. Abrão não “imaginou” Deus; ele reconheceu a presença de Deus ao se revelar e falar com ele proferindo uma promessa: aquela terra não era apenas um lugar que Abraão estava passando, mas que seria dada à sua descendência.
Então, no carvalho Moré, em Siquém, após ouvir Deus, Abrão edifica um altar a Deus.
8- E moveu-se dali para a montanha do lado oriental1de Betel, e armou a sua tenda, tendo Betel ao ocidente2, e Ai ao oriente; e edificou ali um altar ao Senhor, e invocou o nome do Senhor.
Após o episódio em que Abraão ouve a voz de Deus e edifica um altar junto ao carvalho de Moré, ele segue adiante em sua caminhada. Abrão se muda para uma região montanhosa que ficava entre Betel, ao oeste, e Ai, ao leste, ali ele arma a sua tenda e novamente constrói um altar a Deus e invoca o nome Dele.
9- Depois caminhou Abrão dali, seguindo ainda para o lado do sul.
Ele continua a sua caminhada, sai daquele ponto e segue para o sul.
Abrão desce ao Egito
10- E havia fome naquela terra; e desceu Abrão ao Egito, para peregrinar ali, porquanto a fome era grande na terra.
Ao tentar se estabelecer em Canaã, Abraão se depara com a primeira grande dificuldade: a fome. Aquele lugar atravessava um período severo de falta de alimentos, o que o leva a buscar solução fora dali.
Embora Canaã fosse o lugar que Deus havia prometido a Abraão, permanecer ali começa a ficar insustentável diante da intensidade da fome. Por isso, ele desce ao Egito, com o propósito de encontrar alimento suficiente para garantir a sobrevivência de seu bando.
11- E aconteceu que, chegando ele para entrar no Egito, disse a Sarai, sua mulher: Ora, bem sei que és mulher formosa à vista;
12- E será que, quando os egípcios te virem, dirão: Esta é sua mulher. E matar-me-ão a mim, e a ti te guardarão em vida.
Quando Abraão se aproxima da entrada do Egito, prestes a atravessar suas fronteiras, o medo toma conta dele. Ele começa a refletir sobre a beleza de sua esposa, Sara, e percebe que isso poderia se tornar um grande problema. Entrar em uma terra estrangeira acompanhado de uma mulher tão bela lhe parecia um tanto perigoso. Abraão acreditava que os egípcios, ao vê-la, desejariam ficar com ela por causa de sua beleza.
Mediante a esse medo, ele compartilha com Sara os seus pensamentos e expõe a ela o que ele achava que poderia acontecer como consequência: seria morto para que pudessem tomar sua esposa.
13- Dize, peço-te, que és minha irmã, para que me vá bem por tua causa, e que viva a minha alma por amor de ti.
Então, Abraão propõe a Sara para dizer aos egípcios que ela era irmã dele. Ele pede para ela omitir o fato de ser sua esposa. Fazendo assim eles a poupariam a vida dele.
14- E aconteceu que, entrando Abrão no Egito, viram os egípcios a mulher, que era mui formosa.
Quando Abraão entra no Egito, acontece exatamente o que Abraão previu, ficaram de olho em Sara porque era muito bonita.
15- E viram-na os príncipes de Faraó, e gabaram-na diante de Faraó; e foi a mulher tomada para a casa de Faraó.
Ela foi avistada pelos príncipes de Faraó, que ficaram impressionados com sua beleza e a elogiaram diante dele. Sara foi então levada para a casa de Faraó, provavelmente a intenção era de tomá-la como esposa.
16- E fez bem a Abrão por amor dela; e ele teve ovelhas, vacas, jumentos, servos e servas, jumentas e camelos.
Faraó fez bem a Abraão por causa de Sara, deu presentes a ele como: ovelhas, vacas, jumentos, servos, jumentas e camelos.
Abraão começou a prosperar e ter tudo aquilo que ele foi buscar no Egito, estava prosperando materialmente mas não temos registro do que ele pensava a respeito de Sara estar nos braços de outro homem.
Algo importante: nem toda prosperidade é boa ou muito menos aprovada por Deus. Abraão recebe riquezas, mas pagou um preço alto com a separação de sua esposa.
Não temos escrito uma celebração por esses bens conquistados, apenas o registra, deixando claro que algo está fora do lugar.
17- Feriu, porém, o Senhor a Faraó e a sua casa, com grandes pragas, por causa de Sarai, mulher de Abrão.
Deus viu tudo o que estava acontecendo e não aprovou. Interviu depressa por causa de Sara. Feriu a Faraó e a sua casa enviando grandes pragas
18- Então chamou Faraó a Abrão, e disse: Que é isto que me fizeste? Por que não me disseste que ela era tua mulher?
Faraó, de alguma forma percebeu que aquela desgraça que estava acontecendo com ele e a sua casa tinha alguma relação com a permanência de Sara em sua casa, então ele descobre que Sara era mulher de Abraão.
Indignado, Faraó questiona a Abraão o por que ele não disse a verdade que Sara era sua esposa;
19- Por que disseste: É minha irmã? Por isso a tomei por minha mulher; agora, pois, eis aqui tua mulher; toma-a e vai-te.
Ainda indignado, Faraó continua questionando Abraão sobre o motivo de ele ter dito que Sara era sua irmã e não sua esposa. Em seguida, Faraó se justifica, afirmando que só pegou Sara para ser sua mulher porque acreditava que ela fosse irmã de Abraão.
Enfurecido, Faraó devolve Sara e os expulsa do Egito.
20- E Faraó deu ordens aos seus homens a respeito dele; e acompanharam-no, a ele, e a sua mulher, e a tudo o que tinha.
Decidido, Faraó dá ordens aos seus empregados a respeito do ocorrido e determina que acompanhem Abraão, Sara e todo o seu bando até a saída do Egito.
- Lado oriental: Na Bíblia, o termo “lado oriental” refere-se ao Leste, a direção onde o sol nasce. A palavra vem de oriente, que significa “nascer” ou “origem da luz”.
Na mentalidade bíblica, o Leste era o principal ponto de orientação, e muitas descrições geográficas partem dessa referência. Por isso, quando o texto menciona deslocamentos “para o oriente”, está indicando um movimento em direção ao Leste. ↩︎ - Ocidente: Na Bíblia, o termo “ocidente” refere-se ao Oeste, a direção onde o sol se põe. A palavra vem do latim occidens, que significa “pôr-se” ou “declinar”.
Na orientação bíblica, o Ocidente é o oposto do Oriente (Leste) e, geograficamente, corresponde ao movimento em direção ao Mar Mediterrâneo quando o ponto de referência é a terra de Canaã. ↩︎