Gênesis 17 marca um dos momentos mais importantes da aliança entre Deus e Abraão.
Treze anos após o nascimento de Ismael, Deus volta a falar com Abraão, reafirmando Suas promessas e estabelecendo uma aliança perpétua com ele e seus descendentes. Neste capítulo, Abrão recebe o novo nome de Abraão, que significa “pai de muitas nações”, e Sarai passa a se chamar Sara.
Deus também institui a circuncisão como sinal visível da aliança e anuncia que o filho da promessa nascerá de Sara, apesar de sua idade avançada. O capítulo destaca a fidelidade de Deus em cumprir Seus planos e a importância da obediência e da fé diante do impossível.
Deus muda o nome de Abrão
1- Sendo, pois, Abrão da idade de noventa e nove anos, apareceu o Senhor a Abrão, e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em minha presença e sê perfeito.
Abrão, aos 99 anos de idade, é visitado novamente por Deus. Não sabemos exatamente em que forma Deus apareceu a ele mas disse para Abraão andar na presença Dele e ser perfeito.
2- E porei a minha aliança entre mim e ti, e te multiplicarei grandissimamente.
Neste versículo, Deus reafirma a aliança que já havia estabelecido com Abrão (ver Gênesis 12:2, 13:16, 15:5 e 16:10) e renova a promessa de multiplicar grandemente a sua descendência. Embora essa promessa já tivesse sido anunciada anteriormente, Deus a confirma mais uma vez, reforçando Sua fidelidade e preparando o cenário para o cumprimento que estava prestes a acontecer.
3- Então caiu Abrão sobre o seu rosto, e falou Deus com ele, dizendo:
Abrão se prostra diante de Deus em sinal de reverência e submissão. Diante da presença do Senhor e da renovação da aliança, entendemos que, ao cair com o rosto ou sobre o rosto, ele está reconhecendo a sua dependência e humildemente se coloca para ouvir a voz de Deus.
4- Quanto a mim, eis a minha aliança contigo: serás o pai de muitas nações;
Ao iniciar sua fala com a expressão “Quanto a mim”, Deus está enfatizando a Sua própria parte na aliança. É como se estivesse dizendo: “Da minha parte, a promessa continua firme”. Deus reafirma que cumprirá fielmente aquilo que prometeu. Em seguida, o Senhor declara que Abrão seria pai de numerosas nações, revelando mais uma vez o nde ele chegaria e a certeza da promessa divina.
5- E não se chamarás mais o teu nome Abrão, mas Abraão será o teu nome; porque por pai de muitas nações te tenho posto;
Ainda no mesmo diálogo Deus muda o nome de Abrão para Abraão e explica o motivo dessa mudança: Abraão estava sendo colocado pelo próprio Deus como pai de muitas nações.
6- E te farei frutificar grandissimamente, e de ti farei nações, e reis sairão de ti;
A promessa feita a Abraão por Deus não fica apenas na aliança e “ser pai de muitas nações”, mas é ampliada ainda mais. Deus afirma que a descendência de Abraão seria tão grande a abundante que dela surgiriam nações e reis.
Essa promessa começou a se cumprir anos depois, com o surgimento da nação de Israel. Dela vieram diversos reis, incluindo Davi e seus descendentes.
7- E estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência1 depois de ti em suas gerações2, por aliança perpétua3, para te ser a ti por Deus, e à tua descendência depois de ti.
Quando Deus diz:
“E estabelecerei a minha aliança entre mim e ti…”:
Aqui Deus está dizendo com quem a aliança está sendo feita: com Abraão. Ele afirma que não é uma ideia mas algo concreto estabelecido por Ele mesmo. Uma iniciativa partindo do próprio Deus e não de Abraão.
“e a tua descendência depois de ti em suas gerações…” :
Deus está dizendo que a promessa não ficaria limitada a Abraão mas também para os seus descendentes e todas as gerações posteriores.
“por aliança perpétua…” :
Deus destaca a continuidade dessa aliança, uma aliança feita para sempre, algo não temporário ou limitado a uma única geração, mas de um compromisso duradouro estabelecido pelo próprio Deus.
“para te ser a ti por Deus,…” :
Aqui encontramos uma das partes mais importantes do versículo. Mais do que prometer descendentes, terras ou prosperidade, Deus promete a Si mesmo. O Senhor se apresenta como o Deus de Abraão, estabelecendo um relacionamento pessoal com ele.
“e à tua descendência depois de ti…”:
A mesma aliança que estava sendo feita com Abraão está sendo estendida aos seus descendente.
8- E te darei a ti e à tua descendência depois de ti, a terra de tuas peregrinações4, toda a terra de Canaã em perpétua possessão e ser-lhe-eis o seu Deus.
O que estava sendo prometido alcançaria gerações futuras. Deus lembra que Abraão ainda vivia como estrangeiro em Canaã, sem possuir aquelas terras, mas promete que toda aquela região seria dada a ele e à sua descendência como herança. Além disso, Deus reafirma que continuaria sendo o seu Deus e o Deus de seus descendentes.
9- Disse mais Deus a Abraão: Tu, porém, guardarás a minha aliança, tu, e a tua descendência depois de ti, nas suas gerações.
Embora a promessa da aliança fosse feita a Abraão e estendida aos seus descendentes, Deus atribui a eles a responsabilidade de guardar essa aliança. Ao ler isso, entendemos que, para que as futuras gerações também permanecessem fiéis ao pacto estabelecido por Deus, Abraão deveria transmitir aos seus descendentes a importância dessa aliança e o compromisso de obedecer ao Senhor
10- Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós, e a tua descendência depois de ti: Que todo o homem entre vós será circuncidado5.
Deus explica de forma clara e prática como a aliança deveria ser guardada, observada. Então ele ordena que todo homem que estivesse no meio deles deveria ser circuncidado. A circuncisão seria o sinal visível da aliança e identificaria aqueles que pertencia ao povo que havia se comprometido a guardar o pacto feito com Deus.
11- E circuncidareis a carne do vosso prepúcio6; e isto será por sinal da aliança entre mim e vós.
Neste versículo, Deus explica de forma mais detalhada como deveria ser realizado o sinal da aliança. A circuncisão consistia na remoção do prepúcio, a pele que cobre a extremidade do órgão genital masculino. Esse ato serviria como o sinal visível da aliança estabelecida entre Deus e o seu povo.
12- O filho de oito dias, pois, será circuncidado, todo o homem nas vossas gerações; o nascido na casa, e o comprado por dinheiro a qualquer estrangeiro, que não for da tua descendência.
Quem deveria ser circuncidado:
- todo menino ao 8º dia de nascimento
- todo homem que nasceu no meio deles
- todo servo, adquirido por dinheiro
- todo estrangeiro que habitava entre eles
13- Com efeito será circuncidado o nascido em tua casa, e o comprado por teu dinheiro; e estará a minha aliança na vossa carne por aliança perpétua.
Deus reforça que todos os homens que faziam parte da casa de Abraão deveriam ser circuncidados, tanto os nascidos entre eles quanto os comprados por dinheiro.
A circuncisão seria uma marca permanente no corpo, servindo como sinal visível da aliança estabelecida por Deus.
14- E o homem incircunciso7, cuja carne do prepúcio não estiver circuncidada, aquela alma será extirpada8 do seu povo; quebrou a minha aliança.
O homem que não fosse circuncidado deveria ser retirado do meio do povo.
A circuncisão era o sinal visível da aliança estabelecida por Deus, e rejeitá-la era o mesmo que rejeitar o próprio pacto. Por isso, aquele que se recusasse a receber a circuncisão seria considerado alguém que havia quebrado a aliança com Deus.
Deus muda o nome de Sarai
15- Disse mais a Abraão: A Sarai tua mulher não chamarás mais pelo nome de Sarai, mas Sara será o seu nome.
Foi nesse mesmo diálogo, em que Deus reafirma a aliança, renova as promessas e muda o nome de Abrão para Abraão, que o Senhor também muda o nome de Sarai.
Deus diz a Abraão que, a partir daquele momento, ela não deveria mais ser chamada de Sarai, mas de Sara.
16- Porque eu a hei de abençoar, e te darei dela um filho; e a abençoarei, e será mãe das nações; rei de povos sairão dela.
O motivo da mudança do nome de Sarai é explicado pelo próprio Deus. O Senhor promete abençoá-la, dando-lhe um filho, e declara que ela seria mãe de nações. Além disso, reis surgiriam de sua descendência.
17- Então caiu Abraão sobre o seu rosto, e riu-se, e disse no seu coração: A um homem de cem anos há de nascer um filho? E dará à luz Sara da idade de noventa anos?
Ao ouvir da própria boca de Deus que Sara seria mãe, Abraão riu em seu coração e se questionou como aquilo poderia acontecer. Afinal, ele estava prestes a completar 100 anos e Sara já tinha quase 90, uma idade em que ter filhos parecia humanamente impossível.
18- E disse Abraão a Deus: Quem dera que viva Ismael diante de teu rosto!
Esse versículo dá a entender 2 interpretações:
1 – Após ouvir que Sara daria à luz o filho da promessa, Abraão volta seus pensamentos para Ismael. Podemose Entender que ele não estava rejeitando o que Deus estava prometendo, um filho através de Sara, mas demonstrando preocupação com o futuro de seu filho Ismael que já existia.
2- Outra possibilidade é que Abraão estivesse pensando:
“Não seria mais fácil cumprir a promessa por meio de Ismael, que já existe?”
19- E disse Deus: Na verdade, Sara, tua mulher, te dará um filho, e chamarás o seu nome Isaque, e com ele estabelecerei a minha aliança, por aliança perpétua para a sua descendência depois dele.
Deus responde a Abraão que, embora Ismael já fosse seu filho, o herdeiro da promessa ainda nasceria de Sara, sua esposa. O Senhor então ordena que, quando a criança nascer, que coloque o nome dele de Isaque.
Deus é categórico ao afirmar que a aliança não seria estabelecida com Ismael, mas com Isaque. Seria com ele que o Senhor firmaria uma aliança para sempre, que alcançaria não apenas sua vida, mas também os seus descendentes depois dele.
20- E quanto a Ismael, também te tenho ouvido; eis aqui o tenho abençoado, e o farei frutificar, e o farei multiplicar grandissimamente; doze príncipes gerará, e dele farei uma grande nação.
Mas Deus tranquiliza Abraão e deixa claro que não se esqueceu de Ismael. O Senhor afirma que ouviu o pedido de Abraão em favor de seu filho e que a sua bênção já estava sobre a vida de Ismael.
Deus promete que Ismael seria grandemente abençoado, daria muitos frutos e se multiplicaria de forma extraordinária. Além disso, 12 príncipes surgiriam de sua descendência, e dele também se formaria uma grande nação.
Obs: Deus não estabelece a aliança com Ismael, mas também não o rejeita. O versículo mostra que Ismael não seria o herdeiro da aliança, porém continuaria sendo alvo do cuidado, da bênção e das promessas de Deus. Isso ajuda a entender melhor a diferença entre a bênção sobre Ismael e a aliança com Isaque.
Essa promessa não ficou apenas nas palavras. Anos mais tarde, a Bíblia registra que Ismael teve 12 filhos, que se tornaram príncipes e líderes de suas próprias tribos (Gênesis 25:12-16). Sua descendência cresceu e formou grandes povos no Oriente Médio. Dessa forma, vemos o cumprimento da promessa de Deus de que Ismael seria grandemente multiplicado e daria origem a uma grande nação.
Muitos estudiosos associam os descendentes de Ismael às antigas tribos árabes da Península Arábica. Embora não seja possível identificar com precisão todos os seus descendentes nos dias atuais, a tradição judaica, cristã e islâmica reconhece que grande parte dos povos árabes tem suas origens ligadas a Ismael. Assim, a promessa de Deus de que ele daria origem a uma grande nação foi verdadeiramente cumprida ao longo da história.
21- A minha aliança, porém, estabelecerei com Isaque, o qual Sara dará à luz neste tempo determinado, no ano seguinte.
Esse versículo é como se Deus dissesse: “Eu abençoarei a Ismael, mas a aliança não será estabelecida com ele. A aliança será firmada com Isaque, o filho que Sara dará à luz no próximo ano.”
22- Ao acabar de falar com Abraão, subiu Deus de diante dele.
Após essa conversa, a presença de Deus se afasta de Abraão.
Como mencionei no versículo 1, o texto não descreve de que forma Deus apareceu a Abraão. No entanto aqui, no versículo 22, nos dá uma pista quando diz que “subiu Deus de diante dele”. Entendemos, portanto, que o Senhor se manifestou de alguma forma visível, pois estava diante de Abraão durante essa conversa.
A Bíblia não informa qual foi essa manifestação. Não sabemos se foi por meio de uma luz, de uma visão ou de outra forma sobrenatural. O que o texto deixa claro é que Abraão teve um encontro real com Deus e que, ao final da conversa, essa manifestação se retirou de sua presença.
A instituição da circuncisão
23- Então tomou Abraão a seu filho Ismael, e a todos os nascidos na sua casa, e a todos os comprados por seu dinheiro, todo o homem entre os da casa de Abraão; e circuncidou a carne do seu prepúcio, naquele mesmo dia, como Deus falara com ele.
Abraão obedece à ordem de Deus naquele mesmo dia. Ele reúne seu filho Ismael, todos os homens nascidos em sua casa e também aqueles que haviam sido comprados por dinheiro, ou seja, os servos que faziam parte de sua família.
Então, conforme Deus havia ordenado, todos eles foram circuncidados. A circuncisão consistia na remoção do prepúcio do órgão genital masculino e servia como o sinal da aliança estabelecida por Deus.
24- E era Abraão da idade de noventa e nove anos, quando lhe foi circuncidada a carne do seu prepúcio.
25- E Ismael, seu filho, era da idade de treze anos, quando lhe foi circuncidada a carne do seu prepúcio.
Abraão foi circuncidado juntamente com eles, aos 99 anos de idade e Ismael aos 13.
26- Naquele mesmo dia foram circuncidados Abraão e Ismael seu filho,
27- E todos os homens da sua casa, os nascidos em casa, e os comprados por dinheiro ao estrangeiro, foram circuncidados com ele.
Ao repetir que todos foram circuncidados naquele mesmo dia, o texto enfatiza que Abraão obedeceu a Deus prontamente. Assim que recebeu a ordem de Deus, ele a colocou em prática, incluindo a si mesmo, seu filho Ismael e todos os homens de sua casa.
- Descendência: é o conjunto de pessoas que vêm depois de alguém em uma linha familiar, ou seja, filhos, netos, bisnetos e todos os que se originam de um mesmo antepassado.
O termo também pode ser usado em sentido mais amplo, não apenas biológico, mas como continuidade. Pode representar aquilo que alguém deixa como legado, seja na família, na cultura, na fé ou até nas ideias que influenciam outras pessoas ao longo do tempo.
Assim, descendência não fala apenas de origem, mas de continuidade e impacto, mostrando como a história de uma pessoa pode seguir viva através das gerações. ↩︎ - Gerações: refere-se aos grupos de pessoas que nascem e vivem em épocas próximas, formando uma sequência ao longo do tempo dentro de uma família ou da sociedade.
No contexto familiar, representa a sucessão entre pais, filhos, netos e assim por diante, marcando a continuidade da vida. Já em um sentido mais amplo, pode indicar períodos históricos, destacando mudanças de comportamento, valores e cultura entre diferentes épocas.
A palavra também carrega a ideia de transmissão, aquilo que passa de uma geração para outra, como ensinamentos, tradições, experiências e até crenças, mostrando como o tempo conecta o passado, o presente e o futuro. ↩︎ - Perpétua: é algo que não tem fim, que permanece continuamente ao longo do tempo, sem interrupção. ↩︎
- Peregrinações: são viagens realizadas com um propósito especial, geralmente espiritual, religioso ou de busca interior. ↩︎
- Circuncidado: um homem que passou por uma circuncisão. Circuncidar é o ato de remover, por meio de um procedimento, a pele que cobre a extremidade do órgão genital masculino, chamada prepúcio.
Esse termo pode ser usado em dois contextos principais. No sentido físico, refere-se a uma prática médica ou cirúrgica. No contexto religioso, especialmente nas tradições judaica e islâmica, a circuncisão é um rito que simboliza aliança, identidade e compromisso com a fé. ↩︎ - Prepúcio: é a pele que cobre e protege a extremidade do órgão genital masculino, conhecida como glande. ↩︎
- Incircunciso: é o termo usado para descrever alguém que não passou pelo processo de circuncisão, ou seja, que mantém o prepúcio intacto. ↩︎
- Extirpada: é o particípio do verbo extirpar e significa algo que foi totalmente removido, arrancado ou eliminado pela raiz.
A palavra pode ser usada em sentido físico, como na retirada de algo do corpo, ou em sentido figurado, indicando a eliminação completa de um problema, sentimento ou prática.
Carrega a ideia de remoção definitiva, como algo que não apenas foi tirado, mas retirado de forma profunda, para que não volte a existir. ↩︎